Antidepressivos no tratamento de depressão pós-parto

WHO /Sergey Volkov

Antidepressivos no tratamento de depressão pós-parto

Resumo RHL

Resultados principais

  • Inibidores seletivos dos receptadores de serotonina (ISRS) para depressão pós-parto (DPP) aumentaram resposta e remissão do quadro quando comparado ao placebo. Em alguns estudos a psicoterapia foi uma co-intervenção em ambos os grupos.
  • ISRS versus tratamento usual por 4 semanas seguidas de visitas (aconselhamento indireto): encontrou maior melhora com ISRS com 4 semanas, porém não depois.
  • Não foram encontradas diferenças entre ISRS e antidepressivos tricíclicos

Evidências incluídas nesta revisão

Seis estudos randomizados envolvendo 596 participantes no Reino Unidos, Estados Unidos e Israel.

Avaliação de qualidade

Estudos incluídos tiveram número pequeno de participantes e em geral houve alto risco de viés.

Implicações clínicas

DPP é uma área negligenciada tanto no tratamento clínico quanto em pesquisas, particularmente em cenários de baixos recursos. Em muitos cenários, visitas pós-parto de rotina raramente acontecem, e quando acontecem, screening para DPP é raro. Muitas mulheres sofrem depressão sem saber que se trata de uma condição médica que requer tratamento. O inventário de DPP de Edinburgo é um método de rastreamento que foi validado em cenário de baixo recurso, na África do Sul.

Quando DPP é diagnosticado, as evidências limitadas dos estudos randomizados sugerem que ISRS são efetivos, mas as informações acerca da segurança de amamentação são limitadas. Efeitos adversos potenciais nas crianças devem ser pesados contra as evidências dos prejuízos da DPP no desenvolvimento infantil.

Pesquisas futuras

Novas pesquisas são necessárias acerca desta condição frequente e debilitante, incluindo prevalência, estratégias de prevenção e diagnóstico, e tratamento, particularmente em cenário de baixos recursos. O uso generalizados de progestágenos injetáveis em cenários de baixos recursos necessita de considerações neste contexto, uma vez que um estudo com controle placebo da África do Sul encontrou um risco aumentado de DPP com progestágenos injetáveis.


Revisão Cochrane

Citação: Molyneaux E, Howard LM, McGeown HR, Karia AM, Trevillion K. Antidepressant treatment for postnatal depression. Cochrane Database of Systematic Review 2014, Issue 9. Art. No.: CD002018. DOI: 10.1002/14651858.CD002018.pub2.

Resumo

A depressão pós-parto é um distúrbio comum que pode ter efeitos adversos de curto e longo prazo sobre a morbidade materna, o recém-nascido e a família como um todo. Em grande parte, o tratamento se dá por meio de suporte social e intervenções psicológicas. Não se sabe se antidepressivos são uma escolha efetiva e segura para tratar esta desordem. Esta revisão foi conduzida para avaliar a efetividade de diferentes antidepressivos e comparar sua efetividade em relação a outras formas de tratamento, placebo ou tratamento usual. Trata-se de uma atualização da revisão publicada pela primeira vez em 2001.

Avaliar a efetividade de drogas antidepressivas em comparação a qualquer outro tratamento (psicológico, psicossocial ou farmacológico), placebo ou tratamento usual para a depressão pós-natal.

Nós pesquisamos o Registro Especializado do Grupo Cochrane para Depressão, Ansiedade e Neurose (CCDANCTR) em 11 de julho de 2014. Este repositório contém relatórios de ensaios randomizados controlados (RCTs) relevantes das seguintes bases de dados bibliográficos: Biblioteca Cochrane (todos os anos), MEDLINE (1950 em diante), EMBASE, (1974 em diante) e PsycINFO (1967 em diante). Também pesquisamos registros de estudos internacionais e fizemos contato com laboratórios farmacêuticos e especialistas na área.

Foram incluídos ensaios clínicos randomizados de mulheres com depressão iniciada até seis meses após o parto, e que compararam o tratamento antidepressivo (isolado ou em combinação com outro tratamento) com qualquer outro tratamento, placebo ou tratamento usual.

Dois revisores trabalharam de forma independente na extração dos dados. Sempre que possível, foram solicitados informações omissas dos pesquisadores. Procuramos dados que pudessem produzir uma análise por intenção de tratar. Metanálises de efeitos aleatórios foram realizadas para agrupar dados a partir da identificação de estudos suficientemente comparáveis.

Foram incluídos seis estudos com 596 participantes nesta revisão. Todos os estudos tinham modelo de ensaio paralelo controlado randomizado; dois foram realizados no Reino Unido, três nos EUA, e um em Israel. Foram conduzidas metanálises para agrupar dados de associação e resposta dos estudos comparando antidepressivos com placebo. Não foi possível conduzir metanálises para outras comparações devido ao pequeno número de ensaios clínicos identificados.

Quatro estudos compararam inibidores seletivos dos receptadores de serotonina (ISRS) com placebo (dois usando sertralina, um usando paroxetina e um usando fluoxetina; 233 participantes no total). Em dois destes estudos ambos os grupos intervenção e placebo também receberam terapia psicológica. O risco relativo agrupado com base nos dados de três desses estudos (146 participantes) mostrou que as mulheres randomizados para ISRS tiveram maior taxa de resposta e remissão do que aquelas randomizadas para placebo (resposta: RR 1.43, 95% IC 1.01 a 2.03; remissão: RR 1.79 , IC 95% 1.08-2.98); o quarto estudo não relatou dados sobre resposta ou remissão.

Um estudo (254 participantes) comparou tratamento antidepressivo com tratamento usual (para as primeiras quatro semanas) seguido de visitas de acolhimento. Este encontrou taxas significativamente maiores de melhora no grupo com tratamento antidepressivo em comparação com o grupo de tratamento usual após as primeiras quatro semanas, mas nenhuma diferença entre antidepressivos e visitas de acolhimento no seguimento posterior. Além disso, um estudo comparando a sertralina com nortriptilina (um antidepressivo tricíclico) não encontrou diferenças de efetividade (109 participantes).

Efeitos colaterais foram reportados por uma proporção substancial de mulheres, mas não houve evidências de uma diferença significativa no número de efeitos adversos entre os grupos de tratamento em qualquer estudo. As informações foram muito limitadas sobre os efeitos adversos em crianças amamentadas, e não tiveram seguimento de longo prazo. Todos, com exceção de um estudo, foram avaliados como sendo de alto ou incerto risco de viés de atrito e comunicação seletiva de resultados. Em particular, um dos estudos com controle-placebo teve mais de 50% de perda de seguimento.

A base de evidências para esta revisão esteve muito limitada, com um pequeno número de estudos e pouca informação sobre uma série de desfechos importantes, especialmente em relação aos efeitos potenciais sobre a criança. Risco de viés, por exemplo com altas taxas de atrito, bem como baixa representatividade das participantes (por exemplo, exclusão de mulheres com depressão severa ou crônica em vários ensaios) também limitaram as conclusões que podem ser sugeridas.

Estimativas agregadas de resposta e remissão encontrou que os ISRS foram significativamente mais efetivos que placebo para mulheres com depressão pós-parto. No entanto, a qualidade das evidências que contribuem para esta comparação foi avaliada como muito baixa devido ao pequeno tamanho da amostra para esta comparação (146 participantes de três estudos), ao risco de viés nos estudos incluídos e à inclusão de um estudo em que todos os participantes dos dois grupos receberam receberam terapia psicológica adicional. Não houve evidências suficientes para concluir se, e para quem, antidepressivos ou tratamentos psicológicos/psicossociais são mais efetivos, ou que alguns antidepressivos são melhor tolerados do que outros. Ainda, não são suficientes as evidências sobre se os benefícios dos antidepressivos persistem para além de oito semanas após o parto, ou se eles têm efeitos adversos de curto ou longo prazo em crianças sob aleitamento materno.

Profissionais tratando de mulheres com depressão severa no período pós-parto terão que recorrer a outras formas de evidências, incluindo ensaios em populações adultas em geral e estudos observacionais de segurança dos antidepressivos para o aleitamento materno (embora o potencial de confusão nos estudos não randomizados devam ser considerados). Mais ensaios clínicos randomizados são necessários com amostras maiores e maior tempo de seguimento, incluindo a avaliação do impacto sobre a criança e a segurança da amamentação. Mais estudos de grande escala comparando antidepressivos com modalidades de tratamento alternativos também são necessários.

Este resumo RHL deve ser citado como: WHO Reproductive Health Library: Antidepressant treatment for postnatal depression: RHL summary (last revised 14 May 2015). The WHO Reproductive Health Library; Geneva: World Health Organization.